Resenha: "Garota em Pedaços", de Kathleen Glasgow

29 de abr. de 2017
Garota em pedaços
Kathleen Glasgow
Editora Outro Planeta
384 páginas
Além de enfrentar anos de bullying na escola, Charlotte Davis perde o pai e a melhor amiga, precisando então lidar com essa dor e com as consequências do Transtorno do Controle do Impulso - um distúrbio que leva as pessoas a se automutilarem. "Viver não é fácil". Quando o plano de saúde de sua mãe suspende seu tratamento numa clínica psiquiátrica - para onde foi após se cortar até quase ficar sem vida -, Charlotte Davis troca a gelada Minneapolis pela ensolarada Tucson, no Arizona (EUA), na tentativa de superar seus medos e decepções. Apesar do esforço em acertar, nessa nova fase da vida ela acaba se envolvendo com uma série de tipos não muito inspiradores.

Cansada de se alimentar do sofrimento, a jovem se imbui de uma enorme força de vontade e decide viver e não mais sobreviver. Para fugir do círculo vicioso da dor, Charlotte usa seu talento para o desenho e foca em algo produtivo, embarcando de cabeça no mundo das artes. Esse é o caminho que ela traça em busca da cura para as feridas deixadas por suas perdas e os cortes profundos e reais que imprimiu em seu corpo.

Não foi fácil ler esse livro, nem conhecer Charlie - a protagonista dessa história nada feliz. Tinha acabado de ler e assistir "13 reansos why" e a carga sobre esse assunto pesadíssimo estava ainda marcando minha alma e deixando meus pensamentos todos voltados pra esse tema, por isso resolvi começar logo a ler esse livro, apesar de agora achar que devia ter respirado mais um pouco antes.

Charlie sofre de Transtorno do Controle do Impulso e por isso, se automutila pra tentar encontrar alívio nas dores que carrega por dentro. Após quase se matar com cortes profundos nos braços e pernas, Charlie passa a viver em uma clínica psiquiátrica e apesar de lá ser conhecida como "Sue Silenciosa", por quase nunca falar com ninguém sobre coisa alguma, ela sente-se grata por estar lá e por pelo menos ter um teto sobre sua cabeça. Com apenas dezessete anos Charlie passou por traumas horríveis, perdeu o pai e a melhor amiga e desde então não tem uma relação agradável com a mãe. Já precisou morar na rua e apesar de ter amigos que a amassem, todos eles também tinham problemas grandes demais pra lidar.




Eu me corto porque não consigo lidar com as coisas. É simples assim. O mundo se torna um oceano, o oceano cai em cima de mim,
o som da água é ensurdecedor, a água afoga meu coração, meu pânico fica do tamanho do mundo. Preciso de libertação, preciso me machucar mais do que o mundo pode me machucar. Só assim posso me reconfortar.

Depois que o tratamento na clínica é suspenso, Charlie por um segundo acredita que talvez volte a morar com a mãe e ver as coisas dando certo, mas é só encontrá-la para perceber que essa relação seria impossível. Dessa forma, ajudada pelo amigo Mikey ela voa pela primeira vez rumo a Tucson, na tentativa de começar do zero.

Infelizmente Charlie encontra um mundo de novas decepções. Mikey tem uma namorada e o único emprego que consegue é lavando pratos, tendo que conviver com pessoas tão complicadas quanto ela. Riley, irmão da dona do café em que ela trabalha e também um dos empregados, é um dos sinais de que talvez ela não consiga chegar onde precisa e deseja.

As pessoas deviam saber sobre nós. Garotas que escrevem a dor que sentem nos corpos.

Esse livro é simplesmente incrível. Automutilação e suicídio são temas que ultimamente têm sido muito abordados, mas ainda não havia lido algo tão duro, cruel e forte quanto Garota em Pedaços. Não houve romantização, nem um final cem por cento feliz. É só a verdade nua e crua sobre esse tema tão triste e que precisa ser discutido e levado muitíssimo a sério. Muitas vezes senti vontade de abraçar Charlie, coloca-la no colo e dizer que ela era mais forte do que aquilo. E quão forte ela mostrou ser! Esse livrou marcou minha alma. Tornou-se favorito não por ser uma história bonita e feliz - talvez eu nunca consiga relê-lo - mas de fato não vou precisar, porque vai ser impossível esquecer essa história.

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